terça-feira, 24 de agosto de 2010

Thiago de Mello

Thiago de Mello é o nome literário de Amadeu Thiago de Mello, nascido a 30 de março de 1926, na pequenina cidade de Barreirinha, fincada à margem direita do Paraná do Ramos, braço mais comprido do Rio Amazonas, no meio do pedaço mais verde do planeta: a Amazônia.

O poeta, ainda criança, mudou-se para capital, Manaus, onde iniciou seus primeiros estudos no Grupo Escolar Barão do Rio Branco e o segundo grau no então Gyminásio Pedro II.

Concluído os estudos preliminares mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Faculdade Nacional de Medicina. Por lídima vocação, ou por tara compulsiva, como ele prefere, abraçou o ofício de poeta abandonando o curso de medicina para se entregar, por inteiro, ao difícil e duvidoso ( em termos profissionais) caminho da arte poética.

Vivia-se o glamour dos anos 50, num Rio de Janeiro capital do país, ditando para todo Brasil não só as questões de cunho político, mas sobretudo, os eventos artísticos e acontecimentos da produção literária. Hegemonia mantida até hoje mas compartilhada com a cidade de São Paulo e seu efervescente ambiente cultural.

Em 1951, com o livro Silêncio e Palavra, irrompe vigorosamente no cenário cultural brasileiro e de pronto recebe a melhor acolhida da crítica. Álvaro Lins, Tristão de Ataíde, Manuel Bandeira, Sérgio Milliet e José Lins do Rego, para citar alguns nomes ilustres, viram nele e em sua obra poética duas presenças que, substanciosas e duradouras, enriqueceram a literatura nacional.

"... Thiago de Mello é um poeta de verdade e, coisa rara no momento, tem o que dizer", escreveu Sérgio Milliet.

O correr dos anos só fez confirmar suas qualidades e justificar os elogios com que fora recebido pela intelligentsia brasileira. O amadurecimento permitiu ao poeta mergulhar profundamente as raízes da sensibilidade e da consciência crítica na rica seiva humana de um povo ao mesmo tempo tão explorado, tão sofrido e tão generoso como o nosso, e sua poesia, sem perder o sóbrio lirismo que a inflamava, ganhou densidade e concentração, pondo-se por inteiro a serviço de relevantes causas sociais.

Faz Escuro, mas eu Canto; A Canção do Amor Armado; Horóscopo para os que estão vivos, Poesia Comprometida com a minha e a tua Vida; Mormaço na Floresta; Num Campo de Margaridas realizam, por isso, a bela síntese do poeta e do homem que jamais se deixou ficar indeciso em cima do muro de confortável neutralidade. O poeta e o partisan eram uma só pessoa, dedicada sem medir esforços ou riscos à luta pela emancipação do homem, tanto dos grilhões que injustas estruturas do poder econômico-político lhe impõem quanto das limitações com que individualismo, ignorância ou timidez lhe tolhem os passos.

A biografia de um poeta assim concebido e a tanto cometido não poderia jamais desenvolver-se num plano de tranqüila rotina. A de Thiago de Mello teve, por isso mesmo, suas fases sombrias e borrascosas, realçada por arbitrária prisão e longo e doloroso exílio da pátria a que tanto ama e serve.

Essas provações, que enfrentou com a serena firmeza de quem as sabe inevitáveis e delas não foge, enriqueceram-no ainda mais como poeta e ser humano. Alargando sua weltanschauung, permitiram-lhe comprovar o acerto de sua intuição de que o geral passa pelo particular e de que, como dizia seu grande colega Fernando Pessoa, tudo vale a pena/ se a alma não é pequena.

No livro mais recentemente publicado, De Uma Vez Por Todas, todas as linhas marcantes de sua poesia, o lirismo, a sensibilidade humana, a alegria de viver, a luta contra a opressão, o amor constante à Amazônia natal se reúnem harmonicamente, num tecido de rara força e beleza. O poeta não escreve seus poemas apenas em busca de elegância formal: neles se joga por inteiro, coração, cabeça e sentimento, e isso lhes dá autenticidade e força interior.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Nicolás Guillén

Nicolás Guillén, poeta cubano considerado genuíno representante da poesia negra de seu país, nasceu em 10 de julho de 1902, na rua San Ignacio, no.2 em Camaguey, Cuba. Poucos anos depois seus pais mudaram-se para a rua da Contadoria, no. 85 entre Horca e Santana, onde Guillén vai gravar suas primeiras lembranças da infância. Começa a frequentar sua primeira escola, a cargo da professora Isabelita, em frente a sua casa. Posteriormente transfere-se para outra escola maior, também próxima a sua casa.

Frequentou as "Escuelas Pías" de Camagey, onde ,como confessou, sua maior tortura era ter que ouvir missa todos os dias. Foi aí também que sentiu as primeiras manifestações de preconceito racial.

Os livros de literatura espanhola e universal de seu pai e seu padrinho - ambos ilustrados e estudiosos - despertam uma grande inquietação artística em Guillén.

Apesar do pai, eleito senador pelo partido liberal, permanecer bastante tempo em Havana, Guillén só vai conhecer Havana em 1920. Aprende o ofício de tipógrafo na gráfica de seu pai, onde era impresso o jornal "La Libertad".

Trabalhou como tipógrafo antes de dedicar-se ao jornalismo e tornar-se conhecido como escritor. Desde sua juventude participou intensamente da vida cultural e política cubana, o que lhe custou o exílio em várias ocasiões. Ingressou no Partido Comunista em 1937, e após o triunfo da revolução cubana, em 1959, ocupou cargos e realizou missões diplomáticas importantes, até 1989 quando morreu.

Iniciou sua produção literária no âmbito do pós-modernismo e firmou-se nas experiências vanguardistas dos anos vinte, em cujo contexto se converteu no representante mais destacado da poesia negra ou afro-antilhana.

Autor de Motivos de Son (1930), Sóngoro cosongo(1931), West Indies Ltd.(1934) e poemas dispersos em livros posteriores, usou os recursos característicos dessa poesia com a vontade de conseguir uma expressão autêntica da cultura mulata, própria de um país mulato como ele mesmo. Manifestou uma preocupação social que se foi acentuando com o passar dos anos.

Depois de West Indies Ltd., surgem seus poemas com preocupações políticas sociais. Em Cantos para soldado e sones para turistas (1937), El son entero (1947) e La paloma de vuelo popular, mostrou seu compromisso com a pátria cubana e americana, com seus irmãos de raça e com todos os excluídos do mundo, enquanto em España, no poema Angústias Quarta (1937) acusou o impacto da Guerra Civil espanhola e o assassinato de Federico Garcia Lorca.

A crítica da injustiça e do imperialismo não o impede de ser influenciado pelas inquietudes neoromânticas e metafísicas que também dominaram a literatura da época. O amor e a morte são temas fundamentais de sua poesia. Com Tengo (1964) manifestou seu júbilo diante de Cuba revolucionária, e Poemas de amor (1964), El gran zôo (1976), La rueda dentada (1972), El diário que a diário (1972) e Por el mar de lãs Antillas anda un barco de papel - poema para crianças e maiores de idade – (1977) demonstrariam sua capacidade de conjugar preocupações diversas e encontrar formas de expressão sempre renovadas. Na Prosa de prisa (1975-1976) foram reunidos seus trabalhos jornalísticos.